Antes dos bombeiros chegarem, a maioria dos incêndios tem ventilação limitada. Os sinais são: pouco fogo e muita fumaça do chão ao teto.
O motivo nos remete ao triângulo do fogo. Se não há uma das arestas do triângulo, não pode haver fogo. Quando a ventilação é limitada, significa que há pouco comburente (ar).
Porém, quando realizamos aberturas (portas, janelas, teto), imediatamente devolvemos o comburente ao triângulo e permitimos que o fogo volte a existir.
O objetivo deste post não é falar sobre como se forma o fogo e seus fenômenos (roll-over, flashover, backdraft, etc). Possivelmente no futuro farei um post específico. Aqui, focarei na ventilação.
A ventilação é obrigatória num incêndio, mas deve-se ventilar o mínimo possível até se poder jogar água no foco do incêndio (para simplificar, usarei somente água como agente extintor, mas obviamente depende do incêndio).
Um vez iniciado o ataque, deve-se ventilar o máximo possível para ajudar a retirar os gases do ambiente.
A ventilação pode ser natural (horizontal, vertical) ou forçada (ventilador).
Nota: ventilar é diferente de resfriar. Resfriar é a aplicação de água ou outro agente extintor com o objetivo de reduzir o calor e apagar as chamas.
Mas não é possível resfriar somente com ventilação. Se não houver o combate, a tendência é o fogo aumentar com a ventilação, e não diminuir!
Ventilação horizontal:
Consiste na abertura ou arrombamento de portas e janelas, sejam no piso térreo ou em pisos superiores.
Prós: relativamente rápida, fácil e segura de executar, requer muitas vezes um único bombeiro.
Contras: não é tão eficiente quanto a ventilação vertical para um mesmo tamanho de abertura.
Ventilação vertical:
Consiste na abertura de “buracos” no teto com o uso de ferramentas, como motoserra, serra policorte manual e machado.
Não é muito comum no Brasil, mas é extremamente usual nos EUA.
Prós: mais eficiente que a ventilação horizontal para um mesmo tamanho de abertura (devido à dinâmica dos gases: quente sobe, frio desce).
Contras: demora para executar e tem maior risco para os bombeiros (teto desabar). Se água não for aplicada rapidamente, o fogo vai se propagar exponencialmente.
Os estudos citados no post anterior (link) demonstram que, além do risco, este tipo de ventilação não é eficaz e resulta em aumento das chamas, não em redução da fumaça e temperatura, como era esperado!
Ventilação forçada:
Consiste no uso de ventilador. Pode ser do tipo pressão positiva (VPP) ou pressão negativa (VPN, ou exaustor).
Prós: pode aumentar a visibilidade e reduzir a temperatura entre o ponto de entrada e o foco do incêndio.
Contras: ventilar um incêndio com ventilação limitada - sem aplicação de água - sempre irá aumentar as chamas e pode acelerar significativamente a propagação do fogo, por conta do alto fluxo de oxigênio em direção a ele.
Dica: em incêndios em edificações, use o ventilador para pressurizar a escada enclausurada! Isto evitará que fumaça entre na escada e melhorará a condição tanto para as vítimas quanto para os bombeiros.
Atenção: usar ventilador antes de iniciar o combate requer uma boa noção de onde o fogo está e para onde as chamas irão. Cuidado para não piorar a cena!
Regras gerais para incêndios com ventilação limitada:
1- A ventilação sempre aumentará o tamanho do incêndio, a menos que água seja aplicada.
2- Ventilação é essencial e pode melhorar as condições ambientais, mas deve ser coordenada entre a equipe e com aplicação de água o mais rápido possível.
3- Se você puder jogar água no foco do incêndio antes que o fogo reaja com a ventilação, proceda com a mesma. Se não, limite-a até que a linha de ataque esteja pronta.
4- Os estudos demonstraram que o fogo começa a reagir com a ventilação em aproximadamente 1 min e 30 seg a 3 min após iniciada a ventilação. A reação é exponencial. Se for usado ventilador, este tempo reduz drasticamente.
5- Se a ventilação for realizada e água não for aplicada rapidamente, deve-se antecipar possíveis reações do fogo (aumento das chamas, fluxo unidirecional, roll-over, flash-over, etc.)
6- O melhor lugar para ventilar é próximo ao foco do incêndio, oposto à linha de ataque. Em outras palavras, linha de ataque de um lado do fogo, abertura do outro.
7- Como poderá se criar um fluxo unidirecional, os bombeiros devem estar na entrada de ar desse fluxo, não na saída dos gases.
8- Após a extinção das chamas, mais ventilação resulta em maior resfriamento.
9- A fumaça pode conter gases superaquecidos que são combustível para o fogo. Uma abertura inadequada pode fornecer ar suficiente para roll-over, flash-over ou backdraft.
10 -O ataque inicial ao foco do incêndio não extinguirá as chamas, mas reduzirá consideravelmente a temperatura interna, melhorando as condições para a equipe de busca e de combate.
Para finalizar, veja abaixo o vídeo, disponível no Youtube, que exemplifica erros de ventilação e suas consequências.
Repare na rápida propagação das chamas quando se fazem aberturas erradas, sem estar atacando devidamente o foco do incêndio:
Ótimo video
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