segunda-feira, 13 de março de 2017

Entradas forçadas: portas de rolo

No post sobre a ferramenta Halligan (link), comentei que mais adiante faria outros posts sobre entradas forçadas.

Neste, falarei sobre portas de rolo.

Abaixo, a primeira foto é de uma porta de rolo vista por fora (visão do bombeiro). A segunda, uma porta de rolo vista por dentro da edificação:




Não que seja impossível arrombar uma porta de rolo com marreta, machado e Halligan, mas é um gasto enorme de energia, pode poderá fazer falta ao bombeiro no decorrer da ocorrência.

A melhor forma de abri-la é usando uma serra policorte, como na figura abaixo (certifique-se que esteja com o disco de corte correto!):



Para tal, faça um corte vertical na porta. Depois, com ajuda da Halligan ou de um alicate, puxe uma lâmina da porta. As que estiverem abaixo automaticamente sairão junto.

Nota: as lâminas deste tipo de porta são apenas encaixadas umas nas outras, por isto deslizam horizontalmente.

Na sequência, puxe uma lâmina do outro lado. Feito isso, normalmente a parte superior da porta subirá automaticamente, pois dentro do rolo (parte superior da foto do lado interno) existe uma mola. Se ela não subir, basta empurrar com as mãos.

Para visualizar melhor a operação, veja os vídeos abaixo:





Dica 1: não é necessário fazer um corte vertical tão grande. Basta cortar o suficiente para conseguir retirar as primeiras lâminas. Em termos práticos, um corte de no máximo um metro é suficiente.

Dica 2: normalmente as portas de rolo têm fechaduras na parte inferior, junto ao solo. Mas existem modelos que têm a fechadura no meio, como na foto abaixo:


Nestes casos, você deverá fazer um corte vertical que corte tanto as lâminas quanto a barra da fechadura - barra horizontal que liga a fechadura central até os "buracos" na parede.

O corte não deve ser central, para não atingir a fechadura e danificar a ferramenta. Escolha um dos lados, conforme ilustração abaixo:



Feito um corte, retire as lâminas acima da fechadura e o rolo subirá (se não subir, empurre-o com as mãos).

Retire as lâminas abaixo da fechadura. Deverão restar apenas as lâminas presas à barra horizontal. Como você já cortou-a e tem visão do mecanismo de fechamento, basta puxar a barra para fora dos "buracos na parede".

No próximo post, portas pantográficas.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Qual a maior auto-escada/plataforma do mundo

Em 1872, Conrad Dietrich Magirus desenvolveu a primeira escada móvel de "longo" alcance para bombeiros. Daí advém o nome que até hoje é referência em auto-escadas: Magirus.


Ilustração de uma escada Magirus do ínicio dos ano 1900

De lá pra cá, a evolução foi gigantesca, mas o princípio continua o mesmo: permitir acesso a lugares mais altos por meio externo.

Com o desenvolvimento de novas tecnologias e materiais, dois novos modelos surgiram: auto-plataformas e auto-escada-plataformas.

Basicamente, a diferença está no alcance e na operação.

As auto-escadas conseguem atingir alturas em torno de 65m (cerca de 22 andares), são arvoradas rapidamente e, geralmente, os bombeiros partem do solo e sobem suas escadas até o andar desejado.

Algumas possuem um cesto na ponta da escada, permitindo que os bombeiros já sejam elevados no próprio cesto. A maioria das escadas modernas também conta com esguicho na ponta.

Veja exemplo da maior escada Magirus, com alcance de 60m. Repare na segunda foto que quatro braços auxiliam na estabilidade, mas não elevam o caminhão do chão. Isso permite uma operação mais rápida.





As auto-plataformas e auto-escada-plataformas conseguem atingir alturas maiores. A empresa que desponta como líder nesse segmento é a Bronto Skylift, que possui um equipamento capaz de atingir 112m de altura (cerca de 37 andares)!

Neste caso, por uma questão de limitação de projeto, ela é somente uma auto-plataforma (sem escadas).

Existem outros modelos "mais baixos" que também possuem escadas, mas que são usadas mais em caso de emergência (a plataforma enguiçar, por exemplo), do que no próprio resgate.

Todos os modelos de combate a incêndio desta empresa possuem esguicho automático no cesto.

Veja abaixo o equipamento de 112m de alcance. Repare que, para conseguir a devida estabilidade, ele precisa ser levantado do chão, bem como seu braço telescópico precisa ser desdobrado, o que torna a ação de arvorar mais lenta.







Porém, se o maior alcance é de 112m (em torno de 37 andares), como alcançar andares mais altos que isto?

Justamente pela limitação de altura dos equipamentos de resgate, edifícios contam com escadas enclausuradas e, nos arranha-céus mais modernos, áreas de abrigo isoladas e pressurizadas em determinados andares para que as pessoas possam aguardar o resgate em segurança.

Até alguns elevadores estão sendo projetados para, em caso de incêndio e mesmo sem eletricidade, poder transportar as pessoas em segurança até o térreo (operando com geradores autônomos, isolamento ao fogo e à água e pressurização da cabine).

Para mais informações, clique aqui.

Outra alternativa já abordada em um post anterior é o uso de helicópteros (link), porém existem limitações.

Saudações!

quarta-feira, 8 de março de 2017

Método SLICE-RS

Já ouviu falar no método SLICE-RS?

Em 2014 foi apresentado um estudo conjunto de dois anos realizado pela ISFSI (International Society of Fire Service Instructors), UL (Underwriters Laboratories), NIST (National Institute of Standards and Technology) e as empresas Honeywell e Scott Safety.

O intuito foi ajustar e atualizar as práticas, táticas e treinamentos de combate a incêndio, para criar um ambiente mais seguro tanto para os bombeiros quanto para a comunidade.

Como resultado, chegou-se ao método SLICE-RS. Este acrônimo significa:
  • S = Size up (dimensionar a cena)
  • L = Locate the fire (localizar o fogo)
  • I = Identify and control the flow (identificar e controlar o fluxo de gases)
  • C = Cool from a safe location (resfriar de um local seguro)
  • E = Extinguish the fire (extinguir o fogo)
  • RS = Rescue & Salvage (busca e salvamento)

O método não é obrigatório, mas sim uma recomendação de atualização de práticas nas corporações.

Temos que entender que, principalmente nos EUA, os métodos de combate a incêndio são muito mais agressivos, combatendo o fogo "de dentro para fora" da edificação. As operações de busca e salvamento são realizadas muitas vezes sem se estar atacando o foco do incêndio.

Além disso, como mencionado no post sobre ventilação tática (link), a técnica de ventilação vertical, tão difundida por lá, não é eficaz como se pensava. De fato, até piora a situação se água não estiver sendo aplicada no foco do incêndio.



No Brasil, de forma geral, trabalhamos com combate defensivo, buscando aplicar água logo no começo da operação. Mesmo não tendo prévio conhecimento do método, estamos alinhados com o SLICE-RS.

Um dos motivos do estudo foi a rápida evolução dos incêndios modernos, devido principalmente ao uso extensivo de materiais sintéticos.

Com isso, demonstrou-se que jogar água cedo no fogo, mesmo do lado de fora de uma edificação, melhora substancialmente a condição do ambiente, reduzindo a temperatura dos gases superaquecidos e protegendo as vítimas e os bombeiros.

Mesmo o risco de geração de vapor aquecido de água é muito menor do que o risco de estar exposto a altas temperaturas.

Também concluiu-se que qualquer abertura constitui ventilação, e ventilação sem água só faz aumentar a temperatura interna (pois alimenta o fogo).

Vamos ao método!

Size up (dimensionar a cena):
  • Sempre que possível realizar uma avaliação 360o na edificação.
  • Avaliar condições climáticas, direção do vento, onde o fogo está e para onde está indo, fluxos de gases, possível presença de vítimas presas na edificação, etc.

Locate the fire (localizar o fogo):
  • Procurar por chamas vísiveis ou saída de fumaça.
  • Avaliar condições da fumaça, como direção, densidade e velocidade.
  • Usar câmera térmica se disponível.

Identify and control the flow (identificar e controlar o fluxo de gases):
  • Identificar se o incêndio é do tipo ventilação limitada (muita fumaça do chão ao teto, poucas ou ausência de chamas) ou não.
  • Identificar fluxos bidirecionais e unidirecionais (link).
  • Avaliar plano neutro (link).
  • Controlar aberturas. Lembre-se: qualquer abertura de portas ou janelas já configura ventilação, e só deve ser realizada se água puder ser jogada no foco do incêndio.
  • Se água não puder ser aplicada, feche portas e janelas para controlar o fluxo (link).

Cool from a safe location (resfriar de um local seguro):
  • Pode ser do lado de fora ou de dentro da edificação (desde que seja seguro).
  • Se for do lado de fora, usar preferencialmente jato sólido e jogar água na fumaça. A ideia é resfriar os gases superaquecidos, não apagar o fogo.


Extinguish the fire (extinguir o fogo):
  • Garantidas condições seguras para adentrar a edificação, atacar o foco do incêndio.
  • Realizar busca, caso ainda não tenha sido realizada.
  • Fazer o rescaldo.

Rescue & Salvage (busca e salvamento):

São consideradas ações de oportunidade, pois dependem da possibilidade de haver ou não vítimas presas na edificação.

O resgate das vítimas é sempre prioridade mas, de acordo com esta nova abordagem, a busca primária somente será realizada se houver indícios ou confirmação de vítimas dentro da edificação.

Se, ao chegar na cena, os moradores confirmarem que todos saíram da edificação, a operação de busca deve ter uma prioridade inferior, sendo realizada somente junto à etapa de extinção das chamas.

Isto garante a segurança dos bombeiros, pois nesta etapa já não há mais risco de ser pego por um fluxo unidirecional e/ou pelos fenômenos do fogo (flashover, backdraft).

Entretanto, havendo possibilidade de vítimas, a operação de busca e salvamento deve ser priorizada e realizada em paralelo às demais.

Se não houver equipe suficiente para tal e a primeira guarnição na cena tiver que realizar a operação, uma alternativa é que o motorista do caminhão de combate a incêndio efetue, pelo lado de fora, o resfriamento dos gases superaquecidos no interior da edificação.

O simples fato de jogar água nos gases fará com que a temperatura interna caia e evitará que os bombeiros em busca e salvamento, bem como as vítimas, sofram queimaduras ou até a morte.

Para a equipe de busca e salvamento, não esquecer de fechar portas e janelas para bloquear os fluxos!

Conclusões

O método SLICE-RS é uma recomendação para as primeiras equipes que chegarem à cena. 

Dimensionada a cena, localizado o foco do incêndio, identificado e controlado o fluxo, reduzida a temperatura dos gases superaquecidos e iniciada a extinção, os riscos estão controlados e pode-se prosseguir normalmente com a ocorrência, até o completo rescaldo.

Para finalizar, o vídeo abaixo é um resumo do método (somente em inglês):



Até o próximo post!

segunda-feira, 6 de março de 2017

Resgate veicular: teoria vs. realidade

Lembro claramente da minha primeira ocorrência de resgate veicular, lá em 2008.

Recém saído do curso de formação do Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville, estava num plantão noturno. Tinha acabado de jantar, quando soa o alarme da viatura de resgate.

Coração veio à boca! Mas consegui raciocinar, correr para onde ficavam os conjuntos de aproximação, vestir o meu e embarcar na viatura.

Equipe de 4 pessoas (motorista, chefe, bombeiro 1 e eu). O deslocamento foi rápido. Na viatura, um silêncio típico de quem, de tanta experiência no assunto, aparentava tranquilidade. Era mais uma ocorrência de resgate.

Menos para mim!

Chegando no local, uma colisão frontal carro - ônibus. Coisa feia. Uma vítima - a do carro - encarcerada (nota: encarceramento mecânico e físico tipo 1 - veja método SAVER).

Pensei comigo: vou seguir meu treinamento e começar pelo isolamento da área. Zona quente, morna e fria (ou círculos interno e externo), 5m, 10m, 15m...

Eis o primeiro problema! O ser humano é um bicho curioso! A população quer estar perto do acidente. E era tanta gente, numa rua apertada, que não dava para isolar mais do que 5m ao redor dos veículos acidentados. Paciência, fiz o que pude.

Depois, fui preparar a motobomba e as ferramentas hidráulicas. Pensei: vou montar o palco, tirar ferramentas, calços, e tudo mais que possa ser usado.

Eis o segundo problema! Quando comecei a fazê-lo, o bombeiro 1 já estava com uma das ferramentas hidráulicas na mão pedindo pressa, pois a condição da vítima estava se agravando. Tinha que ser extraída do veículo o mais rápido possível.

Ajudei-o e novamente pensei: preciso estabilizar o veículo e desligar a bateria.

Eis o terceiro problema. Não havia tempo nem equipe para fazer tudo na ordem correta. Calçamos duas rodas e já começamos a abertura das portas. Desligar a bateria ficaria para o final.

Foi uma ocorrência de grande aprendizado, por dois motivos principais:

1- No meu primeiro resgate já tive que ajudar a abrir portas, retirar completamente o teto e afastar o painel. E tudo muito rápido (a vítima foi retirada com vida do veículo)!

2- Ali percebi que, como dizem, "na prática, a teoria é outra". Talvez a melhor descrição seja: "na prática, você precisa adaptar a teoria".

E como fica o método SAVER (link) nessa história? Um método reconhecido internacionalmente, consistente. Pulamos etapas, invertemos algumas, quebramos protocolos? Coisa de dar nó na cabeça de novato!

Pois bem, resolvi contar essa minha história para ilustrar as dificultades e diferenças entre teoria e realidade.

Acontece que as teorias de resgate (como o método SAVER) são estudadas e desenvolvidas como o cenário ideal. Se você conseguir seguir exatamente o método, terá a certeza de estar mitigando o risco para você, sua equipe, a(s) vítima(s) e a população.

Também vai garantir que a(s) vítima(s) seja(m) desencarcerada(s) e extraída(s) do veículo da forma menos prejudicial possível, no menor tempo, com a maior segurança que a situação permitir.

Devemos ter o método como um guia, um tipo de check-list mental. E adaptá-lo conforme a necessidade.

Tenho como seguir a ordem exata descrita no método?

Consigo fazer uma estabilização razoável do veículo para permitir que um resgatista / socorrista adentre o mesmo para estabilizar a vítima?

Consigo acessar a bateria e desligá-la? Se não, qual o risco de iniciar o resgate antes de desligar a bateria?

A condição da vítima está piorando? Entrou em PCR? Como posso extraí-la o mais rápido possível para iniciar os procedimentos de reanimação?

Com o tempo e a prática, absorvemos os métodos e criamos instintos. Conseguimos avaliar riscos em nosso subconsciente. E tomar decisões que, às vezes, parecem contrariar a lógica de quem olha de fora.

Na ocorrência, devemos manter o foco e nos comunicar o tempo inteiro. Tomar decisões em conjunto é melhor que decidir sozinho. E manter a humildade, sempre!

Até o próximo post!

sexta-feira, 3 de março de 2017

Estabilizadores

Dentro do método SAVER (link), uma das etapas é a estabilização.

Esta etapa envolve vários passos, e um deles é a estabilização do veículo.

Estabilizar o veículo da melhor forma possível é crucial para evitar que o mesmo se movimente durante operações de resgate, reduzindo o risco tanto para a(s) vítima(s) quanto para os resgatistas.

Existem diversas formas de estabilizar um veículo, dentre as quais: calços (cunha, escalonado, retangular, etc), cabos, esvaziamento de pneus e, particularmente no caso de veículos lateralizados, capotados ou sobrepostos, estabilizadores.


Exemplo de estabilização usando estabilizadores e calços

Os estabilizadores geralmente são usados em conjunto com calços, como na figura acima. Calça-se de um lado, depois tracionam-se os estabilizadores de outro.

Quando são usados dois ou mais estabilizadores, é muito importante sincronizar o tracionamento para evitar que o veículo se desloque. Mantenha comunicação com sua equipe!

Para ilustrar as possibilidades de uso dos estabilizadores, selecionei algumas fotos de ocorrências e treinamentos pelo mundo (esta primeira eu participei):


















Até a próxima!