No post anterior escrevi sobre o passado, apresentando a Magirus Deutz do Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville. Hoje, escrevo sobre o presente, apresentando nossa UPE 54 (Unidade Auto-plataforma-escada):
Esta viatura foi adquirida no final de 2010 da empresa Bronto Skylift (Finlândia), possui alcance de 54 metros de altura (cerca de 18 andares) e é umas das auto-escada-plataformas mais modernas do Brasil. Além da escada, possui cesto com esguicho automático (que pode inclusive ser operado do solo) e sistema de ar para EPR (equipamento de proteção respiratória).
O equipamento trabalha com sistemas redundantes e diversos sensores espalhados por todo o veículo, conferindo grande confiabilidade. O sistema não permite fazer nenhum movimento que possa colocar em risco os ocupantes e o próprio veículo.
Desde sua aquisição, já participou de dezenas de ocorrências e treinamentos, desde resgates em altura até grandes incêndios em edificações, comércios e indústrias. Para se ter uma ideia, em sua capacidade máxima, o sistema de bombeamento consome uma carreta de água (cerca de 30 mil litros) em menos de 10 minutos! Por sua capacidade operacional e flexibilidade, é considerada um veículo essencial para nossas operações. Sem sombra de dúvidas, foi um divisor de águas na corporação. Até o próximo post!
Temos na corporação de Bombeiros Voluntários de Joinville uma verdadeira relíquia: um exemplar funcional da auto-escada Magirus Deutz, de 1957.
Antes de mais nada, um pouco de história: A Deutz AG foi fundada em 1864 por Nikolaus Otto, nada mais nada menos que o inventor do motor à combustão interna de quatro tempos - também conhecido como motor de ciclo Otto. Inicialmente só produzia motores, mas em meados de 1870 passou a produzir também veículos (caminhões, ônibus e máquinas agrícolas). Para se ter uma ideia da importância desta empresa, entre as pessoas que trabalharam para a Deutz, alguns nomes são bem conhecidos, tais quais Gottlieb Daimler, Wilhelm Mayback, Robert Bosch e Ettore Bugatti - todos posteriormente fundadores das empresas grifadas em negrito. Já no final da década de 1910, a empresa começou a fornecer motores à Magirus GmBH, a qual passou a ser conhecida também como Magirus Deutz, unindo a tradição das escadas Magirus com a robustez dos motores Deutz, reconhecidos mundialmente na época por trabalharem nas mais difíceis situações. Apesar da idade, o caminhão ainda funciona! A escada está com algum desgaste, porém ainda pode ser arvorada parcialmente. Atualmente, com a aquisição de uma auto-escada-plataforma mais moderna, esta Magirus passou a fazer parte da saudosa história dos Bombeiros Voluntários de Joinville.
Há umas duas semanas participei de uma ocorrência de combate a incêndio em uma carreta carregada de refrigeradores:
Chegando ao local, uma primeira guarnição já havia chegado e combatido o incêndio, cabendo a nós apenas auxiliar no rescaldo e na remoção da carga. A ocorrência em si não teve grandes proporções e dificuldades, porém o mais intrigante foi entender como o fogo começou. Esta carreta estava dentro de uma transportadora. Segundo relatos dos funcionários, ela estava parada no pátio, desconectada do cavalo mecânico e de qualquer fonte de energia elétrica. No momento também não havia chuva e raios. De repente, eles começaram a avistar fumaça saindo da carreta e, num ato de muita coragem, um dos funcionários que manobrava um cavalo mecânico conectou-o na carreta e a levou para fora da transportadora, evitando que o fogo se espalhasse para os demais caminhões ao redor. Extinto o fogo, procuramos por indícios de como o incêndio poderia ter começado. Não havia qualquer sinal de derretimento ou avaria na parte elétrica, nos pneus, freios ou qualquer outra parte externa da carreta. De fato, a história de que ela não estava conectada a nada parecia fazer sentido. Então começamos a cogitar vazamento de gás de algum refrigerador, pois alguns gases usados no sistema de refrigeração podem ser inflamáveis. A pergunta seguinte foi: o que gerou uma faísca para que o fogo se iniciasse? A hipótese mais plausível foi a de energia estática, pois os refrigeradores são envoltos com isopor e plástico e, no transporte, a fricção entre as embalagens pode acumular energia. Mesmo assim, como poderia ter gerado uma faísca se o caminhão estava parado? Ao final, saímos da ocorrência com dúvidas e hipóteses, mas com o dever cumprido. Neste tipo de ocorrência, a chance de tomar grandes proporções é alta, pois as carretas ficam muito próximas umas das outras. O agente extintor a ser usado dependerá da carga no interior da carreta. Neste caso, usamos água para extinguir o fogo por resfriamento e abafamento e, posteriormente - com a ajuda dos funcionários da transportadora - retiramos a carga para se certificar que não havia mais fogo em seu interior. Também não custa lembrar que é primordial usar EPI completo e EPR, pois os tipos de material usados na construção dos refrigeradores são bastante tóxicos quando submetidos a fogo e/ou altas temperaturas. O combate é feito por fora e deve-se tomar muito cuidado ao abrir as portas, pois poderão ocorrer fenômenos como flashover e backdraft. Pode-se adentrar à carreta para retirar a carga somente quando tiver certeza que o fogo foi extinto. Até a próxima!
Na última quinta-feira, participei de uma ocorrência de resgate veicular em que tivemos certa dificuldade em localizar e desligar a bateria do veículo.
Em qualquer ocorrência de resgate veicular, é crucial desligar a(s) bateria(s), a fim de reduzir o risco de incêndio, caso haja vazamento de combustível. Se você tiver dúvida sobre este procedimento, veja este post. Normalmente, a bateria fica sob o capô, mas em alguns veículos pode estar no porta-malas ou embaixo de algum dos bancos. Ao abrir o capô, nos deparamos com uma indicação de "positivo", mas não havia bateria. Desconectamos este positivo, porém as luzes internas e pisca-alertas permaneceram ligados. Abaixo do console central do automóvel, notamos um cabo de grande diâmetro, alaranjando, indo em direção ao porta malas. Como a estrutura do veículo foi danificada no acidente, tivemos que abrir o porta-malas com uma ferramenta hidráulica, e encontramos a bateria no compartimento do estepe. Desconectados os polos negativo e positivo, a energia foi finalmente cortada. Analisando o polo positivo encontrado sob o capô, entendemos tratar-se de um dispositivo de segurançaque interrompe a corrente elétrica que chega ao motor. Entretanto, os demais equipamento internos e lanternas continuam ativos até que se encontre e se desligue a bateria. Sob a ótica de risco de incêndio, a desconexão deste polo positivo junto ao motor seria suficiente, mas sob a ótica dos procedimentos de resgate e método SAVER, devemos encontrar a(s) bateria(s) e desconectá-la(s) completamente. Só assim garantiremos que eventuais dispositivos de segurança não acionados (como airbags e pré-tensionadores) não serão ativados acidentalmente. Até a próxima!
Imagine o seguinte cenário: um carro colide com algum objeto (outro carro, um meio-fio, etc), fica lateralizado e esmagado contra um muro. Ilustrando a situação:
Agora imagine que este carro é um sedan e que o teto foi comprimido contra este muro, não havendo acesso imediato pelo pára-brisas, vidro traseiro ou porta-malas, e com acesso bastante restrito pelas portas laterais. Há uma vítima no interior (condutor), inconsciente. Neste cenário, não é possível um socorrista / resgatista adentrar o veículo para checar o estado geral da vítima, nem mesmo estabilizá-la. Uma alternativa - possilvemente a mais recomendada - seria: 1. Estabilizar o veículo com calços e estabilizadores. 2. Remover portas laterais 3. Remover tampa do porta-malas e bancos traseiros. 4. Acessar a vítma para checar sua condição e estabilizá-la (se for possível). 5. Não sendo possível extraí-la pela porta lateral ou porta-malas, fazer um acesso pelo assoalho do carro. O vídeo abaixo ilustra os procedimentos:
O problema dessa técnica é que ela exige muito tempo e, como a vítima não responde a comandos verbais, não é possível saber sua condição. Até que um socorrista / resgatista consiga acessá-la, estabilizá-la e um acesso pelo assoalho seja feito, a condição da vítima pode piorar muito, eventualmente evoluindo para morte. Uma alternativa não convencional seria realizar um "tombamento controlado" do veículo. Ilustrando:
Dessa forma, com o veículo com as quatro rodas no chão, ficaria muito mais fácil realizar o resgate, removendo completamente o teto. Como a vítima não foi estabilizada, esta técnica tem de ser realizada de forma muito controlada. Pode-se utilizar cabos e guinchos de viaturas para desvirar o veículo cuidadosa e gradualmente. O ideal é que os resgatistas também controlem o "tombamento" pela parte do assoalho do carro, evitando solavancos que possam agravar ainda mais a situação da vítima. Concluindo, esta técnica pode ser usada em casos como o citado acima, onde não se conhece o estado geral da vítima, ela não responde a comandos verbais e não se tem fácil acesso por qualquer abertura (portas, porta-malas, pára-brisa). Saudações!